Sábado, Junho 27, 2009

Esqueçam o Incostitucionalissimamente


Lembram-se quando aprenderam na escola, lá no primário, que a maior palavra da língua portuguesa era Inconstitucionalissimamente com suas 27 letras? Isso é passado tualmente essa palavra é a sexta da lista. Bom, das cinco palavras, quatro foram criadas por médicos. Talvez a capacidade de criar palavras complicadas façam essas figuras de jaleco se sentirem mais importantes que o resto do mundo. Aqui vai uma breve apresentação das campeãs.


5- Oftalmotorrinolaringologista: Tem 28 letras. Agora fodeu... já me trava a língua falar o otorrinolarinlogogista... laringogogista, larinjologista... putz, eu nunca sei. Enfim, um médico que cuida dos olhos, do nariz, da gargante e ouvidos é interessante, mais ou menos como um cabeleireiro que também faz barba, depilação, unha, massagem, drenagem linfática enquanto transa um samba do bom. Mas quer um conselho? Nunca marque dentista e oculista no mesmo dia, ou vai sair sem enxergar nada e mastigando a bochecha.

4- Anticonstitucionalissimamente: São 29 letras para dizer o mesmo que inconstitucionalissimamente. É o maior advérbio da língua portuguesa. Normalmente é usada a exaustão pelos advogados como maneira de hipnotizar os juízes

3- Hipopotomonstrosesquipedaliofobia: Com 33 letras é a minha favorita. É o nome dado ao transtorno psiquiátrico caracterizado pelo medo em dizer palavras grandes ou complicadas. O psiquiatra que inventou esse nome é muitíssimo filho da puta, imagina só, o cara vai ao psiquiatra e quando chega em casa a família pergunta: "E aí, o doutor falou o que você tem?". Pronto, o cidadão entra em pânico na mesma hora.
2- Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiose. Com incríveis 44 letras é o nome de uma rara doença pulmonar causada pela aspiração de cinzas vulcânicas.Na verdade, também é chamada de pneumoconiose, que é o nome mais usado atualmente. Mas para nós, amantes da língua portuguesa, pneumoconiose não tem graça nenhuma.
1- Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico: 46 letras só para foder mais um pouquinho. Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico é o portador de pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiose. Como eu já disse acima, a pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiose é também chamada de pneumoconiose, portanto Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico também pode ser chamado de pneumoconiótico. Mas enfim, já que para nós, amantes da língua preferimos Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiose a pneumoconiose, é fato que melhor que pneucomoniótico é Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico.

Caso não tenham entendido algo, sugiro que voltem ao começo do texto e releiam ele em voz alta.

Quinta-feira, Abril 30, 2009

Recursos Humanos



Atenção, trata-se de obra ficctícia. Qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais terá sido mera coincidência.


Ernesto colocou o porta-retrato com as foto dos filhos na caixa, deu um suspiro e deixou cair uma lágrima. Não conseguia acreditar que vinte anos de empresa cabiam naquele cubo de papelão. Terminou de se despedir dos colegas e foi para casa. Apesar de tudo, procurou erguer a cabeça, afinal, era um conceituado diretor de recursos humanos, tinha cases de sucesso no currículo, cursos no exterior. Propostas não faltariam. Tudo o que queria era curtir os filhos e a esposa durante um tempo, depois retomaria sua carreira de sucesso e faria a empresa se arrepender de tê-lo cortado.

A família entendeu sua situação e até ficaram animados. A empresa tivera seu corpo, sua mente e alma por longas duas décadas, agora era a vez deles. Tinha três filhos, Armando, de 16 anos, Clara de 11 e o caçula Josué com 5. Sentiu uma ponta de arrependimento por ter ficado tanto tempo ausente, não os vira crescer. A lembrança do mais velho no berço, chorando e tirando suas noites de sono era muito recente. E assim passou os dois primeiros meses, brincando com os filhos, levando eles à escola, ao parque no final de semana e dando aquela ajuda para sua esposa nos trabalhos domésticos.

No terceiro mês, Ernesto começou a mandar alguns currículos. Estava tranqüilo, tinha certeza que teria pelo menos mais um mês para analisar as propostas e escolher uma que estivesse à sua altura. No entanto, o tempo foi passando e ele não recebia respostas. Preocupado, resolveu ativar seu networking. Contatou antigos colegas, alguns que lhe deviam favor, mas não teve sucesso. Normalmente eles usavam a crise como desculpa, mas como ex-diretor de recursos humanos ele sabia que sua idade já pesava. Nas poucas entrevistas que conseguiu, brigou com o selecionador, por entender que ele estava usando técnicas absurdas, ultrapassadas, incapazes de avaliar seu potencial.

A rotina doméstica começou a irritá-lo. A correria dos filhos antes de ir para a escola, que vez por outra terminava em atraso e bronca dos professores. As crianças viviam brigando, se colocando apelidos e vez por outra vinham com bilhetinhos dos professores nas agendas escolares por bagunça ou lições não feitas, fora os brinquedos espalhados pela casa. O mais velho acumulava uma pilha de roupas sujas, cada vez que saía, vestia uma camiseta diferente. Se incomodava com a esposa que ia ao mercado da esquina todo dia ao menos umas três vezes antes do almoço, sempre esquecendo de comprar algo porque encontrou a vizinha por lá e ficou papeando. Ernesto era um inútil, durante vinte anos, cuidou de equipes gigantescas, contratando, demitindo, criando e extinguindo cargos e setores, organizando palestras e até definindo o leiaute dos escritórios. No entanto, percebeu que era incapaz de organizar sua própria casa.

Teve um estalo, aquele era o desafio que ele tanto procurou na vida. Conseguir cuidar da própria casa daria a motivação que ele precisava para voltar ao trabalho. Reuniu a família para comunicar sua decisão.

— Caros colaboradores! Tenho percebido que os índices de produtividade dessa família vêm caindo a níveis surpreendentes. Tenho percebido todos vocês desmotivados e trabalhando de maneira caótica. Elaborei alguns relatórios nessas últimas semanas e decidi que vamos fazer uma Reestruturação Organizacional!

A família continuou quieta. Não sabiam se o pai havia enlouquecido ou estava apenas fazendo uma brincadeira, treinando para alguma entrevista. Apesar de não entender, Armando não gostou do tom do pai:

— Pai! Que história é essa de colaboradores, reestruturação, você está de palhaçada com a gente? Eu no MSN trocando idéia com uma puta gatinha e você me tira de lá para vir com essa conversinha...

— A partir de hoje vocês não me chamam mais de Pai! Sou o CEO dessa casa, todas as decisões vão passar por mim. Delegarei tarefas a todos vocês, definirei de que maneira vocês farão e como serão recompensados por isso.

Clara soltou um sorriso e perguntou:

— Recompensa pai! Você vai aumentar nossa mesada?

— A partir de hoje vocês não recebem mais mesada. Serão remunerados por produtividade. Terão metas a cumprir, se cumprirem todas, irão receber mais do que o dobro da mesada que recebem hoje, além de outros bônus como brinquedos, ingressos para o cinema e você Armando, se atingir suas metas, poderá ir para a balada com os amigos.

A esposa entra na conversa:

— Que história é essa de colocar metas para os seus filhos, Ernesto? Você está indo longe demais, isso não é um departamento de vendas de uma multinacional.

— Para os meus filhos não querida, agora todos aqui somos colaboradores. Se trabalharmos em equipe, todos ganharemos. E você também terá que atingir metas se quiser trocar o fogão ou a geladeira. Aliás, o termo “esposa” está ultrapassado, remete a uma cultura medieval, centralizadora, que não combina com as técnicas de gestão do mundo pós-moderno. Você será agora a Vice-Diretora de Gestão Organizacional.

— Armando, por ser o mais velho, você vai ser meu Executivo Sênior. Espero de você um perfil pró-ativo, dinâmico e com capacidade de resolver conflitos.

— Corta essa Velho!

— E tem mais! Se eu encontrar maconha nas suas coisas mais uma vez, vou cortar todas as suas bonficações!

— Clara, pelas peças que você prega nos seus irmãos, percebi que você é muito criativa e orientada para resultados. Por conta disso, você será minha Diretora de Planejamento Estratégico. Você definirá os rumos da casa, os horários do banho, do jantar e das lições. Se cumprir as metas do primeiro mês, ganhará seu primeiro sutiã.

E Ernesto fez valer sua experiência no mercado. A empregada passou a ser chamada de Gerente de Conservação de Patrimônio, e o cachorro de Mascote Aprendiz. Os cômodos da casa foram rebatizados de acordo com sua utilidade nas decisões da casa. A cozinha era Sala de Reuniões, o banheiro Departamento de Marketing e a sala Área de Convivência. As metas envolviam as notas na escola e no curso de inglês, estrelinhas de bom menino para o caçula, desempenho do mais velho nos jogos de futebol do time do bairro. As metas da esposa, ou melhor, Vice-Diretora de Gestão Organizacional passavam por fazer a empregada trabalhar ao invés de ficar batendo papo com ela e no fim das contas fazer quase todo o serviço. Também incluía o sexo, com bonificações para posições mais criativas e realização de fantasias. Além disso, Ernesto decidiu inventariar todos os móveis da casa, e trimestralmente fazer uma auditoria.

Certo dia, Clara chegou com um bilhete da professora, se demonstrando preocupada com a redação que ela havia escrito com o tema “Minha família”.

— Mas a redação está ótima filha, eu mesmo ajudei você a fazer. Não faz sentido ela dizer que você está inventando nomes absurdos para os membros da família. Vou pedir a ela um feedback sobre o assunto. Ah, e avise que agora ela não é mais professora e sim Assistente de Desenvolvimento Complementar.

Não deu muito certo. Dias depois, após uma reunião com a diretoria da escola, Ernesto resolveu que ia contratar uma nova empresa terceirizada para cuidar da Educação Corporativa.

Seguiram-se os dias, semanas e meses. As metas passaram a ser cumpridas e todos na família estavam satisfeitos com suas bonificações. A esposa, que ficava o dia todo no pé da empregada e se sujeitava a posições que antes julgava vulgares, havia ganhado um fogão e geladeira novas, além de jantares em excelentes restaurantes, e noitadas em motéis maravilhosos. Armando, com as melhores notas na escola e artilheiro do time do bairro, alternava as baladas com churrascos para seus amigos em casa, ganhou um videogame novo e uma mesa de pembolim. Clara, a responsável por manter a equipe motivada, não só ganhara seu sutiã, como um conjunto de maquiagem e sapatos de salto alto. Até o caçula Josué, o mimo das tias da escolinha, colecionador de estrelinhas, se esbaldava com seus novos brinquedos.

Mas algo ainda faltava a Ernesto. O dinheiro que havia ganhado da rescisão com a antiga empresa, acabou e ele estava endividado. Um amigo contador observou que seus gastos haviam triplicado desde que ele saíra da empresa. E por mais que ele se sentisse motivado, não conseguia emprego de jeito nenhum. Ao ver a esposa alternando posições estrategicamente e gemendo de maneira mecânica na cama, ele começou a brochar. Falido, impotente e com uma família que fazia tudo pensando em presentes e dinheiro.

Um dia, chegou em casa e viu que o cachorro, quer dizer, Mascote Aprendiz continuava lhe recepcionando com latidos e o rabo abanando. Olhou para a empregada, ou melhor, Gerente de Conservação de Patrimônio, que não recebia qualquer bônus, e fora obrigada a trabalhar dobrado, com a mesma dedicação e respeito que sempre tivera pela família.

Seria o fim de um projeto ambicioso?
Ernesto deu a volta por cima. Enxugou a estrutura administrativa da sua empresa, demitiu esposa e filhos, se mudou para uma casa menor com o cachorro, e a empregada, com quem se casou. Escreveu um livro chamado “Produtividade em Família”, que se tornou um best-seller de auto-ajuda. Hoje é um renomado consultor de recursos humanos e viaja o mundo dando palestras.

Sábado, Abril 04, 2009

Greve no Céu


Deus se jogou em seu trono, jogou para frente as pernas cansadas, esticou seus braços demoradamente e soltou um longo bocejo. A eternidade era cada vez mais tediosa, e ele já não tinha mais o vigor de cinco ou seis mil anos atrás. Percebeu do seu lado uma pilha enorme de orações que vinham dos homens, pedindo dinheiro, saúde, comida, umas poucas agradecendo às bênçãos conquistadas, mas a maioria eram ave-marias e pais-nossos rezados matematicamente em missas e vigílias ou as orações fáticas dos crentes, com “em-nomes-de-Jesus” intercalados entre cada frase.

Procurou o anjo estagiário, responsável por separar as orações e deixar para ele atender apenas dois ou três mil pedidos por semana. Segundo uma consultoria de reconhecida competência no mercado de Paraísos Religiosos, esse era o número mínimo de pedidos a serem atendidos para que as pessoas continuassem acreditando na existência do Todo-Poderoso. Na verdade, ele sabia ser nada menos que um produto da imaginação de seus fiéis, então sua existência se devia única e exclusivamente à crença das pessoas nela. Desde que a Inquisição acabara, Deus não era mais o mesmo, ele vinha perdendo espaço para seu ex-funcionário Lúcifer. Com o tempo, na literatura, na música e nas artes plásticas, o Inferno foi retratado com muito mais freqüência e riqueza de detalhes do que o céu.

De repente, alguém bate desesperadamente na porta de sua sala. O anjo Gabriel entra esbaforido, com seu manto rasgado e sua auréola na mão.

— Gabriel, o que acontece? Isso são modos de um Anjo da sua importância se apresentar ao Todo-Poderoso?

— Senhor, me desculpe, estou vindo da portaria, aconteceu algo inacreditável.

— O que há de tão surpreendente nos portões do céu para você vir aqui desse jeito? Hebe Camargo e Oscar Niemeyer morreram?

— Pior. Os anjos estão todos em greve. Apanhei muito, fui chamado de pelego e tive que entrar pelo portão auxiliar.

— GREVE!!?? Como anjos podem entrar em greve, o que faltam a eles? Já não vivem no Paraíso? Têm acesso a todas as maravilhas do mundo divino... o que eles querem mais?

— Querem a redução da jornada de trabalho, uma revisão no plano de carreiras e a contratação de mais anjos. Também pedem aumento de salário.

— Mas que salário? Desde quando anjo recebe salário?

— Pois eles querem receber um. E os anjos da guarda pedem 50% de adicional de periculosidade. Também querem férias remuneradas de uma década por século trabalhado. Exigem também que se amplie o número de vagas para o coral de querubins.

— Mas que absurdo, onde já se viu anjo com salário e férias. Eles vivem no Paraíso, vão querer descansar para que?
— Por conta da greve, os anjos não estão deixando ninguém entrar no céu. Estão todos fazendo piquete na portaria.

— Mas isso não é possível, e Pedro, onde ele está, não pode permitir uma coisa dessas.

— Pedro aderiu a greve também.

— Traidor maldito!! Vamos resolver isso, Gabriel, chame Jesus!

— É aí que eu queria chegar...

— Não vai me dizer que Jesus também...

— Na verdade ele é o presidente do recém criado Sindicato dos Anjos, Santos e Trabalhadores em Espaços Divinos.

— Meu próprio filho... Mas que Diabo!!!!

— Procurando por mim Deuzito.

— Lúcifer?! Já disse para não me chamar de Deuzito! O que você tá fazendo na minha sala? Como entrou aqui?

— O alemãozinho foi fugir da rapaziada e esqueceu o portão auxiliar aberto.

— Maldito, aposto que está por trás dessa greve.

— Ah como eu queria ter essa idéia. Mas tamo na mema Tiozão. Os anjos caídos também entraram nessa de greve.

— Aonde vamos parar? Greve no Céu... Greve no Inferno!

— A culpa foi sua. Você que inventou de mandar aquele alemão barbudo, o tal do Karl Marx.

— Já chega!! Gabriel! Vou cortar as asinhas de todos esses anjos rebeldes. Manda todo mundo pra terra e contrate uma empresa de seleção. Vamos contratar anjos temporários, com contratos de três séculos.

— Ô Tiozão, aí já é exagero. Eu não vou fazer isso não, vou continuar negociando com a galera. Deve haver uma maneira de resolver essa parada sem apelar. Eu posso ser o Cão, o Capeta, o Demônio, mas não sou filho da puta não.

E assim foi feito. Deus demitiu todos seus anjos e o Diabo continuou negociando. Com o tempo, o acordo não saiu, as negociações não avançaram e as ações da Inferno S.A. despencaram na bolsa. Deus comprou o Inferno, o Diabo se aposentou e montou uma banca do Jogo do Bicho no Rio de Janeiro. Com o monopólio, acabaram-se as guerras, os conflitos e o pecado. Com o tempo, as pessoas deixaram de ter com o que se preocupar e foram diminuindo suas orações e o Reino de Deus foi se enfraquecendo. Num ato de esperteza Deus recriou o inferno como uma nova divisão da Paraíso S.A. e chamou o Diabo para seu diretor.


E todos viveram felizes para sempre.

Quarta-feira, Março 18, 2009

Tempos Modernos


O rapaz aguarda ansiosamente um lugar vago no ônibus lotado, que segue pela movimentada Avenida Paulista. Entre sacolejos, o chiado de diferentes músicas a vazar dos fones de ouvidos e a mistura de perfumes e suores, uma senhora se levanta, deixando vago o assento ao lado de uma bela jovem.
Ele se senta, e após alguns instantes, a menina tira o fone de ouvido, olha com certo ar de espanto para o seu rosto e pergunta:

— Ei... acho que te conheço de algum lugar...

— Talvez.... Daonde?

— Não estou segura, mas acho que te vi outro dia num bar na Augusta.

— Pode ser, costumo tomar cerveja por lá às sextas e sábados.

— Agora não lembro se te vi no Charm ou no Ibotirama..

— Era sexta ou sábado?

— Agora não me lembro... mas que diferença faz? Não disse que está por lá todas às sextas e sábados?

— É que às sextas tomo cerveja no Charm e aos sábados no Ibotirama.

— Você é gay?

— Aos sábados sou.

— Como assim, aos sábados? Durante o resto da semana não é?

— Não, apenas aos sábados

— Agora estou lembrada, era você sim, lembro de te ver sentado com mais dois ou três gays, numa mesa do lado de fora da calçada, e umas quinze garrafas de Brahma no chão, ao lado. Se estava acompanhado de gays, era um sábado e você estava no Ibotirama. Pronto... matamos a charada!!!

— Impossível.

— Como assim impossível?

— Eu só tomo Brahma às sextas, no Charm. Sábado é dia de Skol no Ibotirama.

— Nossa, sempre assim?

— Sempre.

— Nunca pede uma Brahma no Ibotirama?

— Nunca.

— Nem vai aos sábados no Charm?

— Jamais

— Bom... é provável que eu tenha me confundindo. Vai ver as garrafas eram da mesa ao lado, ou eu era sexta-feira e eu me enganei a respeito dos seus amigos serem gays.

— Pode ser.

— Você me parece uma pessoa bem interessante, a gente podia combinar de tomar umas qualquer dia.

— Pode ser, que tal esse sábado?

— Olha, eu preferia que fosse na sexta, se é que você me entende...

— Na sexta não vai dar.

— Porque não?

— Na sexta sou skinhead, e você é mulata. Uma bela mulata por sinal.

— Meu Deus do Céu!!! Você é bem estranho, como alguém pode ser skinhead às sextas e gay no sábado?

— Na verdade sou um jovem pós-moderno. É coisa do passado, pertencer a uma tribo só, experimentar coisas ligadas a um único grupo. A grande vantagem do jovem pós-moderno é sua versatilidade.

— Eu hein! E domingo, pode ser?

— Aos domingos sou evangélico, não posso beber.

— Puta que o pariu!! A cada dia da semana você vem com uma esquisitice diferente.

— Na verdade às terças-feiras é meu dia de ser completamente normal.

— Faz o seguinte, vou anotar o meu telefone num papel e você me liga quando sua esquisitice pós-moderna puder me aturar.

— Ok. Te ligo na quarta-feira.

— Estamos na quinta ainda, porque vai esperar até quarta para me ligar?

— Esse número é da TIM, e quarta-feira é meu dia de usar TIM, assim ganho desconto na ligação.

— A cada dia você usa um celular de operadora diferente?

— Mais ou menos, como só temos quatro operadoras, às segundas eu uso rádio Nextel e às quintas todos os meus aparelhos estão sem bateria. Aos domingos, para não atrapalhar minha comunhão com o Senhor, não carrego nenhum aparelho.

— Mas você não pode gastar um pouco mais e me ligar em outro dia antes da quarta-feira?

— É o seguinte, às sextas-feiras eu sou skinhead e não vou procurar uma mulata, aos sábados eu sou gay, aos domingos sou de Cristo, às segundas sou extremamente pão-duro, incapaz de pagar por uma ligação. Terça-feira sou completamente normal, e em sã consciência jamais te procuraria. Sobra a quarta

— Tudo bem, quarta-feira então. Aliás, vai ser aniversário de um amigo e vai rolar um churrasco. Você pode vir comigo, deve terminar cedo, a gente faz alguma coisa depois.

— Churrasco? Desculpa, mas não vai dar.

— Eu mereço!!! O que você tem na quarta, Sr Pós Moderno?

— Sou punk e vegetariano. A propósito, desço no próximo ponto.

— Você está me deixando maluca. Quer dizer que às segundas é pão duro ao ponto de não gastar com uma ligação para uma mulata que está te dando mole, terça-feira é tão normal que não quer ligar para uma desconhecida, quarta é punk e vegetariano, na sexta é skinhead, no sábado gay e domingo crente. Aliás, hoje é quinta-feira, que diabos você é às quintas?

— Um psicopata sangue-frio.

Com um único corte na jugular, o rapaz tira a vida da bela moça. O senhor que se sentou ao lado dela só percebe que a menina não estava dormindo uns três pontos para frente.

Quinta-feira, Janeiro 15, 2009

2009 e Astrologia.


O Cerveja, Resmungos e Insanidades já foi um diário de aventuras, já tentou emplacar uma novela cômica, tentou como site de poesias, crônicas e contos e até declarações de amor piegas. Dessa vez vou pender para o lado jornalístico da coisa.
Vou colocar aqui, uma entrevista exclusiva para o site com Gaspar da Lua, renomado e inexistente astrólogo, presidente da não menos renomada e inexistente Federação Interzodiacal de Astrologia, Sexologia, Cartomancia e Onirologia, a FIASCO que engloba os profissionais mais importantes das referidas áreas, além de lunáticos e blogueiros que continuam se achando criativos ao fazer trocadilhos usando uma sigla. Confira abaixo as previsões para 2009 e os novos rumos da astrologia.

Cervejas Resmungos e Insanidades:
Gaspar, quais são as novidades que os astros nos preparam nesse início de 2009?
Gaspar da Lua: Graças às conjunções entre as constelações de Pégaso, Cisne, Andrômeda, Dragão e Fênix, que ainda tentam em vão salvar a princesa Atenas de um maníaco qualquer, os astros não nos reservam grandes novidades para o início do ano. Amy Winehouse continua drogada, assim com o Ronaldo não emagreceu e a Mulher melancia ainda cultiva uma enormidade de celulites.

CRI:: Em tempos de crise econômica e muita incerteza no mercado, há um grande número de pessoas que recorrem à astrologia. Isso pode ajudá-las a proteger-se de perdas financeiras?
Gaspar:: Sim. As estrelas esse ano mostram, assim como em todos os outros, que os astrólogos serão os mais beneficiados. A crise é uma boa oportunidade para aumentarmos nossos lucros, e faturarmos em cima daqueles que esperam que uma resposta para seus problemas caia do céu. Além do aumento nos preços, nossas respostas tendem a ficar cada vez mais vagas e cheias de clichês.

CRI:: Que outro tipo de mudanças teremos no mercado de astrologia nesse próximo ano?
Gaspar: A principal mudança se dará nos horóscopos. Fizemos uma pesquisa recentemente e descobrimos que 53% das pessoas que leêm horóscopos nos jornais sequer sabem o próprio signo. Portanto, estamos estudando a possibilidade de trazer apenas um texto que sirva para todos os signos. O conteúdo permanece inalterado, já que jamais um horóscopo disse algo de sério. Mas ao invés de ocupar espaço com doze textos sem importância, diminuiremos para apenas um. Com o dinheiro economizado com o espaço comprado de jornais e revistas, estamos nos dedicando a um grande projeto social, em parceria com o governo brasileiro, que trata da inclusão astrológica das pessoas. É o bolsa horóscopo, um auxílio mensal para ser utilizado na aquisição de mapas astrais, episódios dos Cavaleiros do Zodíaco e revistinhas do João Bidu.

CRI: Já que falamos em horóscopo, é verdade que o signo das pessoas exercem forte influência na escolha de um parceiro amoroso?
Gaspar: Correto, os homens por exemplo, têm preferência pelas mulheres de Escorpião, pelo veneno no rabo. Já as mulheres preferem os homens de áries, touro e capricórnio, por estarem acostumados com os chifres.

CRI: Para encerrar nossa entrevista. Quem ganha a nova edição do BBB?
Gaspar: Certamente o mais imbecil ou o mais feio e pobre. E não preciso consultar os astros para saber disso.