sábado, março 24, 2007

Metrópole

Acendeu um cigarro e pediu mais de uma dose de uísque. Olhou para o lado e viu duas mulheres maravilhosas, uma com um vestido preto justíssimo, cabelos loiros sedosos, mas com raízes castanho-escura, e a outra de calça jeans e blusa decotada, mas com um discreto e charmoso cabelo curto. Viu as mãos de uma na coxa da outra e os sussuros ao pé do ouvido, ficou deveras excitado, tomou um bom gole de uísque e desviou o olhar, para não dar na cara.
Levantou e cambaleou até o banheiro masculino, que estava ocupado. Olhou para o feminino, que parecia livre, mas logo chegaram duas mulheres e entraram juntas no banheiro. Chamou uma delas e jogou uma nota de 5 reais na sua mão. O banheiro masculino desocupou, mas ele não entrou, permanecendo em pé junto à porta. Pouco depois saíram as duas, deixando o lugar livre para ele. Saiu depois de cinco minutos. Uma mulher alertou: "O nariz tá sujo". Ele limpou e saiu.
Pagou a conta e saiu. Sozinho, assim como chegara. Era perto de três horas da manhã, a rua estava cheia, os bares lotados. Ele estava agitado, olhava para todos os lados, até que passou por uma roda, com cerca de oito pessoas, e resolveu parar por lá. Deu um tapa, para relaxar, cedeu três cigarros para o pessoal da roda e continuou andando. Seguiu descendo a rua, com uma sensação de equilíbrio inexplicável, invejável até aos monges tibetanois, o meio termo perfeito entre o apolíneo e o dionisíaco.
Viu uma fachada colorida, um letreiro de neon, com suas luzes quase todas acesas. Na frente, uma homem falava sem parar, e o convidou para entrar. Sentou no balcão e pediu uma cerveja. Uma mulher deslumbrante, em trajes provocantes, sentou-se ao seu lado. Conversaram sobre trivialidades, durante quase dez minutos, e subiram as escadas.
Entaram em uma suíte, e ela de pronto começou a se despir. Os dois se abraçaram e beijaram no chuveiro e foram para a cama. Ela gritava muito, gemia, como se estivesse sendo torturada. Ele a xingava e dava tapas em seu traseiro. Vez por outra, ela dizia baixinho: "Ai bem, tá me machucando", dando o sinal para que ele fosse um pouco mais carinhoso.
Consumado o fato, ela pediu um cigarro. Ambos fumaram em lados opostos da cama, um de costas para o outro, sem dizer uma palavra sequer. Ele terminou antes e procurou sua cueca pela cama. Antes que achasse, tirou o lençol da cama e jogou por sobre a mulher, que manhosa, disse: "ai bem, mas seu tempo acabou"... Foi a última coisa que ela disse, antes que ele enfiasse o lençol em sua boca. Violentou-a com mais violência que antes, sem ser importunado por suas queixas. Quando sentiu que ia gozar, com um movimento rápido e firme, quebrou o pescoço dela, para em seguida ejacular na sua boca.
Com muito custo, abriu a janela do quarto, e ainda nu, fumou um cigarro. Em seguida, saiu do quarto, parou no boteco ao lado e pediu uma dose de uísque. Tirou um pequena embalagem de plástico do bolso, abriu e despejou um pouco de cocaina no copo.

terça-feira, março 13, 2007

Deixem o português em paz...

Tenho ficado cada vez mais assustado com o número de erros de português que proliferam na boca das pessoas. Mas o que mais me espanta é a grande quantidade de paladinos do idioma combatendo esses erros. Estão sempre alertas, e basta um pequeno gerundismo, um pleonasmozinho inofensivo e toma-lhe pancada.
Não suporto isso, afinal a maneira com eu vou estar falando ou não, é pobrema meu. Mas confesso que gosto do showzinho que eles dão, começam levantando a sombrancelha para cima e quando você vê, estão gritando em voz alta. Às vezes fingem que não entendem, e quando você corrige do jeito certo, soltam um: "ah bom!"
Infelizmente meus amigos, não existe o "português correto". Qualquer idioma está constantemente em evolução, incorporando vocábulos e suprimindo outros, que vão caindo no esquecimento. A palavra "você" veio de "voismecê", que por sua vez veio de "vossa mercê", e logo todos estaremos usando só o "cê", para desespero dos puristas.
A comunicação funciona da seguinte maneira, um emissor transmite uma mensagem para um receptor através de um código. Esse último elemento é o que interessa no caso. O emissor pensa em algo, e imediatamente usa um código para transformar aquilo em palavras, isso é a codificação. Já o receptor, ao receber a mensagem, usa esse mesmo código para transformar as palavras em uma idéia, é a decodificação. É por isso que quando eu falo "cadeira", qualquer brasileiro imediatamente pensa naquele objeto que utilizamos para sentar.
Portanto o único pobrema de comunicação que existe se dá quando as pessoas não se entendem. Se o peão fala ao doutor, com seu parco vocabulário, e este o entende, está resolvido, não há nenhum erro de português aí. Agora se o erudito fala ao operário, e o sujeito não entende bulhufas, o primeiro deve estar cometendo uma série de falhas no idioma.
O importante é ser entendido. O idioma é uma criação coletiva, as pessoas falam da maneira que exige menos esforço e permite maior dinamismo na comunicação. É por isso que tantas pessoas falam "pobrema" ou "dibre".
Como não podia deixar de ser, aqui vão algumas dicas para irritas os "paladinos do bom português",

- Quando ele finger que não entendeu, pergunte: "Tem certeza que você fala português?"
- Ao ser criticado por um erro, diga: "Isso é pobrema meu".
- Se as intervenções aumentarem, pergunte: "Quando você vai estar parando de ficar me corrigindo?"
- Tire sarro porque a pessoa usa "r" no fim dos verbos. Quando disserem "cantar" ao invés de "cantá" , diga que parecem um robozinho falando.
- Sempre pergunte se ele engoliu um dicionário.
- Ao ouvir termos como paspalho ou desacorçoado diga que é do tempo do seu avô.
- Pergunte se o certo é "Vai tomá no cu" ou "Vai tomar no cu".
- Se a pergunta acima for respondida, mande a pessoar tomarrrr no cu.

sexta-feira, março 02, 2007

And the Oscar goes to...

Acordou assustado... com a boca seca, a cabeça pesando duas toneladas e os olhos grudados. Desgrudou os cílios direitos, e foi lentamento desgrudando os esquerdos, quando percebeu que os direitos grudaram de novo. Depois de algumas tentativas, resolveu deixar os dois olhos apenas semi abertos.
Percebeu que estava numa cama... mas não era a sua... sequer era uma cama conhecida. Olhou ao redor da cama, e o que viu foi... mais cama. Ela dava a volta... ou melhor era redonda. Se jogou no travesseiro e viu sua imagem refletida no teto. Ele nu, coberto por um grande lençol que rodeava a cama toda. Imaginou que o lençol também deveria ser redondo, para encapar uma cama com o mesmo formato. Mas logo seu devaneio sobre o formato da fronha foi interrompido... pois percebeu um certo volume ao seu lado, embaixo do lençol. A primeira palavra que veio à sua cabeça foi "Caralho!!"
Amedontrado, tateou lentamente o volume. Sentiu uma respiração... tinha algo vivo lá embaixo. Com muita coragem, colocou a mão por dentro, para sentir a textura. Era pele humana... macia, sedosa, tal como a de uma mulher. Ao apalpar um pouco mais, sentiu que realmente era uma mulher, e respirou aliviado.
Respirou fundo, fechou os olhos e descobriu onde parecia estar a cabeça da moça. Desgrudou os cílios com mais dificuldade ainda e olhou a criatura. E por incrível que pareça, era linda, mais do que qualquer mulher com quem já tivesse se deitado. Não que ele já tivesse possuído os seres mais belos da terra, mas essa era melhor do que qualquer uma de quem ele ousasse se aproximar. Descobriu toda a moça e viu que seu corpo também era perfeito. Um sorriso se formou no seu rosto, mas logo caiu em si.
Só podia ser algum tipo de pegadinha... ele não tinha cacife para tanto. Ele só faturava mulheres em final de balada, e mesmo assim, tinha um currículo de fazer inveja a São Jorge. Ele nunca traçaria a princesa, que repousava nua ao seu lado, mesmo que ela estivesse à beira de um coma alcoólico. Mas logo ele ouviu um sussurro: "Benzinho... tô com frio."
Carinhosamente cobriu sua musa e a si mesmo, abraçando-a por baixo do cobertor. Ouve outro sussurro: "Benzinho, a noite passada foi maravilhosa..." e depois de um breve silêncio: "Promete que vai me ligar?". Isso lhe causou uma euforia sem igual. Nunca uma mulher lhe pedira para ligar, a não ser a gerente do banco, quando lhe deixava recados na caixa postal pedindo retorno. Dessa vez, ouvia uma voz lânguida lhe implorando uma ligação, e sem precisar de um cheque especial estourado.
Sentiu que tinha encontrado a mulher da sua vida. Ela era perfeita, e embora não soubesse seu nome, sentia que para conquistá-la, teria que ter dado um golpe de mestre. Mas nunca levou jeito sequer para mestre de obras; sua cabeça era grande demais para aqueles capacetes. Percebeu que aquela foi a tacada de sua vida, e se deixasse aquele mulherão escapar, jamais encontraria outra igual.
Mas pensou melhor, e chegou a conclusão de que talvez tivesse atingido o ponto ideal. Por mais que fosse feio, só falasse asneiras e só se aproximasse das mulheres depois da terceira dose, deve ter descoberto algum truque. Ou talvez fosse a ousadia ao se vestir naquela noite, com uma calça jeans bastante aperdada, a sua camisa comprada na Dunga's e um belíssimo sapato de boliche, comprada na liquidação de um brechó no Brás. Sentiu-se o máximo, o Dom Juan do século XXI, o James Bond by Sampa, o bad boy da Vila Carrão.
Aquela era só a primeira de muitas na sua lista de conquistas. Pensou logo na vizinha casada, na amiga de infância que passava a vida a lhe dar foras (e que só continuava falando com ele por dó de mandá-lo a merda), e para completar a lista do conquistador barato, a namorada do melhor amigo. Elas finalmente iriam reconhecer seu charme.
A mulher ao seu lado lhe abraçou e acariucou os escassos pelos do seu peito e disse baixinho, quase gemendo: "Benzinho... me abraça..". Ele se livrou dela, agarrou as roupas, sacudiu as sombrancelhas a la Austin Powers , e com a voz carregada da sensualidade dos atores de novelas mexicanas disse: "Sorry Baby, preciso ir agora... a noite até que foi boa, mas não espere que eu te ligue..." Se vestiu rapidadamente e acendeu um cigarro. Só depois de ter uma crise de tosse, se lembrou de que não fumava. Deu uma última olhada na vítima daquela noite e foi em direção a porta. Quando tocou a maçaneta foi interrompido: "Benzinho..." Antes que ela completasse, falou: "Não prolongue seu sofrimento, baby..."
"Mas benzinho, você me deve R$300,00"