Pois é...
Outro dia ligo a tv e vejo o Datena inflamado falando com o bandido que arrastou um moleque de seis anos. Chamando o cara de vagabundo, safado e o caralho. Agora, põe os dois frente a frente, e quero ver se o Datena é tão macho.
É tão fácil nesse mundo apontar o dedo para alguém e dizer: "vagabundo", "safado". Depois pega seu terninho, vai para casa, toma uma dose dupla de uísque e cai na cama.
Enquanto isso, na favela, Seu João chega em casa, às quatro da madrugada. Toma um gole de água e dorme num colchãozinho no chão do seu barraco. Antes dá um beijo em cada um dos três filhos, que cria sozinho depois que sua mulher os abandonou.
As nove da manhã já está de pé, toma um gole de café preto e já sai para um dos seus dois empregos. Trabalhando como faxineiro durante o dia e segurança a noite, Seu João ganha cerca de R$800,00. Quase R$200,00 gasta em vale-transporte, já que trabalha sem registro e as empresas não garantem o transporte. Com o restante sustenta seus três filhos e manda parte para sua família no Nordeste.
Datena reclama com seu motorista, que ele pegou um caminho onde o trânsito está complicado. Chega no canal estressado, mas tudo melhora na hora do almoço. A escolha é uma churrascaria, onde come o suficiente para sustentar aquele corpanzil todo.
Seu João, abre a marmita na hora do almoço. Arroz, feijão e um ovo frito. Mas ele começa a pensar que o começo do mês está próximo, e vai comprar um quilo de carne, comer com seus filhos e colocar um bifinho na marmita. Mas só uma vez por mês pode fazer isso.
Datena recebe uma ligação da escola de seu filho de quatro anos. O menino brigou com um coleguinha e tem se mostrado muito agitado, a coordenadoroa sugere que ele procure um psicólogo.
Seu João recebe uma ligação da polícia. Seu filho de dezesseis anos está detido, por tentativa de roubo de carro. Ele contidamente chora. Na primeira vez, quando seu filho, aos 14 anos roubou o walkman de seu colega de classe, Seu João pensou em lhe castigar. Mas ele passava o dia todo fora, não tinha como controlar o menino. Quando ficou sabendo que seu filho fumava maconha, mais uma vez lamentou não estar por perto. Quando ele foi pego com cola de sapateiro, verteu lágrimas ao falar com o delegado... tinha vontade de largar tudo e sumir com o menino para o Nordeste. Mas as coisas lá estão piores do que aqui.
Enquanto isso, seu filho do meio, com 12 anos cuida do caçula de cinco. Pelo menos é o que Seu João espera. Há uma semana, passou mal no trabalho e voltou cedo para casa, e teve que arrancar um cigarro da boca do menino de 12 anos.
O delegado berra aos ouvidos de Seu João. Diz que a culpa é dele por não saber educar o garoto. De seu rosto ossudo e chupado, ele lamenta por não poder ter dado o walkman que seu filho pediu no aniversário de 14 anos.
Os dois outros filhos saem por volta do meio-dia. Passam na casa de uma vizinha onde o menor fica. O outro segue em frente, rumo à escola. A primeira aula é vaga, já que há um mês o professor de história saiu em licença médica e não arrumaram substituto. Enquanto senta no banco em frente à quadra, vê que começa uma briga. O funcionário da escola, há poucos metros finge que não vê a confusão. É quando chega seu amigo, que traz um baseado para compartilharem durante o espetáculo.
O filho de 17 anos de Datena pede trezentos reais ao pai. Afinal, ele precisa levar a namorada para jantar em um lugar legal e comprar um bom presente. Datena dá um sermão sobre o valor do dinheiro, mas entrega a grana, dá um sorrisinho orgulhoso e alerta ao filho sobre o uso de preservativos. Com cem reais, compra o presente e paga o jantar. Com o resto, pega seu carro e vai com dois amigos para uma favela.
Enquanto Seu João continua a ouvir o sermão. a namorada de seu filho chega. A menina, de 15 anos, está no seu quarto mês de gravidez e veio correndo quando soube. O delegado diz a Seu João que seu filho também está envolvido com tráfico de drogas.
E os mundos se encontram, o filho de Datena encontra o filho de Seu João. Leva um galo de maconha e uma bela porção de papelotes. Como não gosta de ir na boca, o menino sempre pega em grande quantidades. De repente chega a polícia...
Cada um sai correndo para um lado, o filho de Datena cai e é pego pela polícia. Toma três tapas na cara e ouve o moleque dizer: "Você não sabe com quem foi mexer..."
O filho de Seu João sai da favela e sai numa avenida. Vê um carro parado na rua e tenta roubá-lo para a fuga. Mas logo é preso e levado para a delegacia.
Após confirmar a paternidade do garoto, os policiais liberam o outro menino. Com a condição de que ele diga para pai que a cara inchada foi resultado de briga com a namorada ou queda acidental. O garoto aceita, já que seu pai não gostaria de saber que foi pego numa favela.
E Seu João abraça o filho... Olha aí... é o meu guri... diz o homem, que nunca ouviu Chico Buarque.
E Datena na TV clama pela redução da maioridade penal.
Seu João queria que seu filho estudasse...
Mas o menino sente saudades da mãe... e do pai, que nunca está em casa.
Datena viaja com a família nas férias.
Seu João na folga, faz bico.
Datena quer justiça
Seu João só quer abraçar seu filho, acariciar o rosto judiado pelas mãos dos policiais. Quer colocar o menino no colo e acalmar o ódio que a criança sente do mundo.
Pense nisso.
Será que quando clamamos por justiça, não devíamos clamar por educação, por dignidade? Quantos "Seus Joões" não existem por aí. Quando uma Suzane não sei das quantas mata os pais a sangue frio, as pessoas se perguntam "O que pode ter levado ela a fazer isso? ela tinha tudo...". Mas quando o menino preto e pobre mata e rouba as pessoas o chamam de vagabundo, bandido, que merece ser morto. O jornalista mata a namorada e pouco depois está solto e ninguém apedreja sua casa. Não quero justificar o ato do rapaz que arrastou a criança, cruelmente. Tenho pena que ele não tenha tido as oportunidades que tivemos e nem a força de Seu João. Tenho pena que o Brasil seja um dos poucos países com uma legislação própria para crianças, jovens e adolescentes, que dia após dia é rasgada em praça pública.
Enquanto isso, Datena toma mais uma dose dupla de uísque.
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